Não sei por que te escrevo isto, só sei que preciso fazê-lo. Nem que seja apenas para organizar as idéias.
Não me lembro bem como entraste na minha vida. Nem tão pouco o pouco que significavas para mim naquela altura. Era eu uma velha criança com mania de adulta. Tinha uma liberdade semi-total das oito da manhã às oito da noite, e tudo fazia para aproveitá-la, quase sem fronteiras. Foi uma época de descobertas, de sensações, de iniciações. Tinha acabado de descobrir o sentimento idiota que é o amor. Estava finalmente a sentir-me querida e necessária no meu grupo de amigos. E aquilo que sentia com tanta intensidade, hoje faz parte apenas de um pequeno livrinho de recordações, cheio de pó e de páginas em branco, esquecido algures nos baús de armazenamento da casinha estranha que é a minha cabeça.
Sei que me lembro de ti como um extraterrestre. Como algo completamente novo para mim. Falavas de situações e sensações que me causavam curiosidade, pudor e vergonha. Vergonha essa, que a partir dos 11 aninhos fui aprendendo a esconder, a camuflar. E tu puxavas por mim. E eu, em cima do orgulho de uma jovem adolescente, desprezava-te. Sabia o que querias, e, por poder tê-lo em qualquer momento que quisesse, não tinha interesse.
O tempo foi passando, nossas vidas se afastaram e fomos seguindo caminhos opostos, que às vezes se cruzavam a caminho da grande casa que é para mim a Arrentela. E, depois de amadurecer mais um bocadinho, de me interessar pelas grandes sensações “proibidas” da vida, fomos passando a conversas mais profundas. Mas detalhadas. Mas quase sempre sobre o mesmo assunto. E tornavas a puxar por mim. E eu tornava a desprezar-te. Para mim, eras um cômico palhaço erótico. Uma pequena distração a caminho do vazio da minha cama.
Juro-te que não me lembro bem como reentraste no meu dia a dia novamente. Sei que, aos poucos, foi crescendo em mim a necessidade de estar na tua companhia. Relaxar, fumar uns charros, rir, e tentar desprezar-te quando puxavas por mim, algo que era tão fácil para mim. Eras a forma de me afastar do núcleo de pessoas que andava a envenenar-me. E, agora que penso nisso, talvez a diferença tenha sido que tinhas uma namorada. E andavas com aliança. Ou seja, sabia que não devia te ter. Talvez isso fosse parte do que me atraía em ti. Talvez tenha sido o facto de mudarmos de assuntos e de eu ter descoberto em ti interesses e conhecimentos mais alargados, que me faziam querer ouvir-te. E, desta vez, foi-se tornando impossível para mim desprezar-te. Dizia a todos que para mim não tinhas importância, que eras passageiro, quando na verdade (hoje sei reconhece-lo) queria era convencer-me disso, para evitar o sentimento de culpa adjacente à situação de “ser a outra”, completamente nova para mim. Até ali, tinha sido capaz de dizer não às tentativas de outros comprometidos. E, quem me conhecia, bem me avisava: Patrícia, vais agarrar-te a ele. E eu negava, agarrava nas minhas coisas e ia a um tal barco sinistro, para estar contigo. E assim foi, até ao momento dramático que foi a nossa separação de meio ano e meio mundo.
Nesse período, continuava a querer convencer-me que não significavas nada para mim. Que eras apenas mais um na lista. Disseste-me uma vez que eu “batia-me de valores”. Não era esse o caso. Eu realmente acreditava que não teríamos nada quando eu voltasse. Sei que a cabeça não queria que estragasses a relação que já existia, supostamente forte, por minha causa. Ou pelo que quer que fosse. E para isso, dizia-me que tanto fazia se essa relação existisse ou não, tu e eu nunca iríamos passar dali. Até que cheguei. Estavas solteiro e não me largavas. E eu pedia a mim mesma para não me precipitar, para organizar a minha vida com calma, descobrir afinal quem é que iria cumprir a sua palavra e me ajudar nos primeiros momentos, e quem me falharia. E tive demonstrações positivas e negativas nesse ponto. Sei que falava contigo sobre morarmos juntos. Como amigos, camas separadas. E era o que queria naquele momento. Ser eu a cuidar de mim, do meu espaço, da minha cama vazia. Mas tu não desistias. E eu, passados quinze dias, já não fui capaz de te resistir. Era a saudade do que já conhecia de ti e do que ainda estava por conhecer.
Não penses que estava apenas a tentar fazer-me difícil. Estava a ser difícil para mim mesma, a criar regras (ou, como diria a minha mãe, a cagá-las), distorcidas do que seria a minha vida. Que eu seria sozinha no mundo, independente e livre. Que não devia satisfações a ninguém. De repente, já não sabia me ver sem ti, não sabia imaginar-me numa cama vazia e fria. E veio então o que acho que foi a semana mais sombria da minha vida. Quem me dera esquecê-la, ser capaz de ignorá-la. Mas a verdade é que ela existiu. E que, aquilo que em outros quinze dias acreditava estar a construir contigo, ruiu, de uma vez. Uma bomba atômica à qual sobrevivi contra a minha vontade. Que me pediste tempo, e me deixaste sem chão, sem ar. Acabou por ser uma forma involuntária de vingança (como já te disse) da mulher a quem fui roubando o namorado. Talvez tenha me tornado mais forte. Eu acho que me obrigou a ser mais racional nas minha emoções. E a ver que, num segundo, tudo pode cair. O pior foi estar na incógnita. Não saber se podia ou não contar contigo como parceiro na minha vida, como presença constante. E ter que raciocinar, analisar, outras soluções para a minha vida.
De qualquer maneira, o facto foi que nem tudo corre mal, e que eu consegui arranjar um espaço para mim, graças à boa vontade e circunstâncias favoráveis à minha situação. Que fui forte o suficiente para não me deixar ir completamente abaixo, para saber ver as coisas boas que a minha vida ainda me oferecia. E, de repente, pude novamente imaginar-te como uma presença constante na minha vida, com a relação que estivesses disposto a ter comigo. E que hoje sabemos qual é.
Hoje sei que estou contigo. Que estás comigo, para o que der e vier. Que posso contar contigo para me aquecer a cama, quando a tua mãe deixa. Ou o pai… E tenho saudades tuas todos os segundos que passo a um oceano de distância de ti. Do teu toque, do teu cheiro, de cada pintinha que tens espalhada pelo corpo, de cada cicatriz que tens marcada, ou mesmo apenas da forma como olhas para mim e me fazes sentir completa, amada, feliz.
Amo-te. E hoje posso te garantir o amanhã. E depois, não sei. Obrigada por existires na minha vida, e, por favor, não saias dela.
Amo-te, e é só.